Em uma entrevista com o professor Ademilson Simões, formado em Estudos Socias e complementação em História pela Universidade Cidade de São Paulo, procuramos expor o conceito de “Jornalismo de Idéias” e suas vertentes ontem e hoje. Acompanhe!
Laudeando: Como você acha que a imprensa colaborou para a difusão dos ideais da revolução francesa?
Simões: "As idéias iluministas foram fundamentais para a formação de uma mentalidade revolucionária. Mas será que o povo lia diretamente os filósofos iluministas? Robert Danton, historiador norte-americano atual, mostrou que geralmente as idéias ilustradas eram transmitidas por autores hoje quase esquecidos, e que escreviam panfletos e livrinhos em linguagem simples e atraente, muitas vezes pornográfica. Não criavam idéias originais, mas eram hábeis na hora de comunicar ao povo os pensamentos elevados dos filósofos. Apesar de proibidos, esses livrinhos circulavam de mão em mão nas ruas de Paris no século XVIII, antes da Revolução."
Laudeando: Que fatores vocês acha que propiciaram a evolução do jornalismo na época?
Simões: "A imprensa revolucionária saciava a fome de idéias do povo. Esse povo que muitas vezes não tinha acesso as idéias e as informações ligadas a corte, tinham acesso a panfletos e jornais clandestinos. Esses veículos e comunicação divulgavam as idéias liberais e criticavam as atitudes absolutistas do Rei Luís XVI. A imprensa desenvolveu-se muito no período revolucionário (Mercúrio da França, Gazette), sobretudo pelos pasquins, alimentando o debate dos parlamentos e da universidade e as disputas religiosas."

Laudeando: “Os Jornais que se seguiram eram ”amigos do Rei”, você concorda que isso seria uma ironia se referindo aos jornais da época que deveriam passar pelo crivo rigoroso do rei/imperador, que não queria ver sua imagem prejudicada perante a sociedade?
Simões: "É claro que os jornais oficiais eram obrigados a falar bem do rei, caso o contrário os jornalistas seriam presos na Bastilha. Mas como já foi citado, muitos pasquins e panfletos divulgam idéias liberais e criticam o governo. Não podemos afirmar que seria uma ironia se referir aos jornais da época como amigos do Rei, já que muitos jornais eram impressos pelos funcionários da corte ou a mando do próprio Rei."
Laudeando: Como você acha que os Girondinos e os Jacobinos influenciaram na liberdade de imprensa por meio do jornalismo participativo?
Simões: "Entre os Girondinos e Jacobinos havia vários jornalistas que incentivavam a participação popular na Revolução.Como exemplo temos Marat, médico e jornalista. No seu jornal, O Amigo do Povo, estimulou as ações revolucionárias dos sans- culotte. Quando um arrogante nobre e general austríaco ameaçou castigar dos franceses caso fizessem alguma coisa ao Rei Luis XVI, Marat fez um grande campanha em seu jornal exigindo o julgamento e execução do antigo monarca.Os ideais revolucionário de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, eram colocados em prática através de criticas feitas pelos jornais revolucionários à pessoas que eram contra a revolução ou mesmo que criticavam as atitudes do revolucionários."Laudeando: Você acha que o jornalismo de idéias ou jornalismo cívico estão ligados diretamente com o que chamamos, até hoje, de revolução?
Simões: "As Revoluções ocorrem quando as coisas mais significativas acontecem umas mais próximas das outras. No processo revolucionário ocorrem mudanças quantitativas e qualitativas. O jornalismo de idéias ou jornalismo cívico muitas vezes registram essas mudanças no exato momento histórico que elas estão ocorrendo. Esse registro, leva ao debate e esses debates levam a mudanças profundas que fazem parte da própria revolução. Como exemplo atual temos as criticas feitas ao Congresso brasileiro. Essas criticas possivelmente exigiram uma alteração profunda no comportamento dos congressistas, caso contrário haverá a crise institucional se aprofundara e poderá levar a uma Revolução político e social.Em 1964 o Congresso passava por uma crise profunda com críticas e denúncias de corrupção, esse crise e o seu descaso por parte o Congresso levou ao golpe de Estado de 1964. A chamada Revolução de 1964, por parte do militares de direita".
Laudeando: Você acha que a liberdade de expressão cívica na época da Revolução francesa foi realmente estimulada sem restrições ou houve uma certa desconfiança diante dessa decisão?
Simões: "A liberdade de expressão foi estimulada até certo ponto. A liberdade teve o seu limita na questão econômica.Pois quando a revolução ganhou corpo e as idéias revolução começaram a ser colocadas em prática, muitos ideais revolucionários que eram estimulados pelos Jacobinos e pelos Girondinos começaram a ser cerceados principalmente quando o povo, durante as jornadas de terror, atacavam a invadiam propriedades dos nobres e dos membros da Igreja. Em nome dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ideais burgueses, muito populares invadiram e saquearam propriedades. A liberdade de expressão somente teria sentido se houvesse um liberdade econômica e social. E nesse momento houve um limite e uma desconfiança por parte da burguesia."
Laudeando: Em relação a importância da imprensa em um período histórico, em qual o momento o Brasil se assemelhou à França, durante a revolução?
Simões: "No Brasil colônia, principalmente durante o século XVIII, as idéias liberais vindas da França ou dos EUA, antiga colônia inglesa, eram divulgadas por panfletos ou pasquins (jornais populares). No Brasil colônia, não havia imprensa. Os livros precisavam ser importados da Europa. Mas o governo português barrava qualquer publicação que contivesse idéias abomináveis. Por exemplo, nenhuma das obras de pensador iluminista podia entrar no Brasil. Só que a proibição não era obedecida. Os livros perigosos entravam escondidos e eram passados de mão em mão em mão entre as pessoas mais instruídas, quase todas da elite colonial. Muitos desses livros inspiraram manifestos feitos contra o governo colonial de Portugal. Esses manifestos se davam através de jornais clandestinos, que divulgavam idéias revolucionárias contra o povo.Esses ideais revolucionários inspiram a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, a Conjuração Carioca, A Revolução Pernambucana, entre outras."
Laudeando: Podemos afirmar que hoje, há um veículo que defenda os ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade? Qual? Por quê?
Simões: "Sim. No Brasil e no mundo, podemos afirmar que os jornais impressos possuem essa função. Pois eles a seu modo buscam divulgar idéias e promover debates, buscando com isso um maior liberdade de expressão. Esse ato por conseqüência provoca uma luta pela igualdade social e política na sociedade e faz com que a mesma se torna mais fraterna. Infelizmente a televisão não possui uma liberdade muito ampla, já que as redes de televisão são concessões governamentais. E uma crítica maior ao governo poderá ser punida com perda de concessões ou até mesmo a retirada de anunciantes favoráveis ao governo. Causando assim um prejuízo financeiro para a emissora."
Laudeando: Sem a relevância da opinião pública nos jornais, O dia do Fico teria de fato, acontecido?
Simões: "O dia do Fico (9 de janeiro de 18922),a decisão do príncipe de permanecer no Brasil e desafiar as Cortes foi produto de um amplo movimento no qual se destacou José Bonifácio.Como membro destacado do governo provisório de São Paulo, José Bonifácio escreveu em 24 de dezembro de 1821 uma carta a D.Pedro, na qual criticava duramente a decisão das Cortes de Lisboa e chamava a sua atenção para o importante papel reservado ao príncipe nesse momento de crise. No Rio, D. Pedro divulgou a carta, que foi publicada na Gazeta do Rio de 8 de janeiro de 1822, com grande repercussão. Dez dias depois, chegou ao Rio uma comitiva paulista, integrada por José Bonifácio, para entregar ao príncipe a representação paulista. Nesse mesmo dia D. Pedro nomeou José Bonifácio ministro do Reino e dos Estrangeiros. Sem dúvida sem a divulgação da carta na Gazeta do Rio e a sua repercussão política e social, as decisões de D. Pedro poderiam ter sido outras. Essa divulgação foi fundamental para o êxito do acontecimento."